Habitats

Habitats
Habitats do Parque Natural de Montesinho.

PNM - vegetação
Vegetação no Parque Natural de Montesinho.
 

A posição geográfica do sistema montanhoso de Montesinho/Coroa, a amplitude das altitudes atingidas, a variedade geológica e geomorfológica e a atividade humana desenvolvida ao longo de séculos, foram e são fatores concorrenciais para o estabelecimento de uma extraordinária diversidade de comunidades e espécies.

Esta área detêm uma enorme relevância proveniente da existência de comunidades bastante distintas e do contacto entre elas, com realce para:

Matos

PNM - urzais em flor
Urzais em flor.

Os urzais, estevais e giestais, vulgarmente apelidados de matos, ocupam amplos territórios do Parque Natural de Montesinho colonizando solos abandonados pela agricultura, orlas de bosques ou terrenos outrora ocupados por um bosque autóctone.

Nas cotas mais elevadas, os solos degradados são dominados pela urze-vermelha Erica australis ssp. aragonensis cuja floração, por volta do mês de abril, imprime à paisagem um colorido característico. Nas cotas mais baixas estes urzais são substituídos por estevais dominados pela esteva Cistus ladanifer e pela Arçã Lavandula stoechas ssp. sampaiana. Nos solos menos erodidos e mais profundos imperam giestas de flor amarela - Cytisus scoparius e C. striatus – ou a giesta-de-flor-branca C. multiflorus.

Os urzais higrófilos dominados pela margariça Erica tetralix e Genista anglica, e as comunidades de caldoneira Echinospartum ibericum, destacam-se pela sua importância em termos de conservação. Enquanto os primeiros ocorrem sobre solos encharcados, as comunidades de caldoneira são próprias de locais ventosos e com solos esqueléticos. Ambos os tipos são raros na região e somente podem ser encontrados nas áreas mais elevadas do Parque, dispostos em mosaico com outras formações vegetais.

Os matos, e particularmente os que ocorrem a maiores altitudes, são biótopos de extrema importância para diversas espécies da fauna selvagem. Muitas delas apresentam um elevado valor conservacionista e encontram nestes territórios as suas áreas preferenciais de ocorrência sendo de realçar o lobo-ibérico Canis lupus signatus, o veado Cervus elaphus, a águia-real Aquila chysaetos, o tartaranhão-azulado Circus cyaneus e o melro-das-rochas Monticola saxatilis. Também por aqui habitam e se alimentam muitos répteis como a víbora-cornuda Vipera latastei e a cobra-lisa-austríaca Coronella austriaca.

Prados naturais

PNM - Prados naturais Telmo Afonso
Prados naturais (® Telmo Afonso).
 

Os lameiros, também designados por prados ou pastagens de montanha, encontram-se associados a grande parte das zonas ribeirinhas que percorrem o Parque Natural de Montesinho. Estes prados permanentes mantidos pelas populações humanas, que os exploram para produção de feno e pastoreio de gado bovino, constituem um biótopo quase exclusivo das terras altas do norte do País.

Os lameiros são também territórios de grande riqueza e complexidade florística e faunística. É possível encontrar lameiros com mais de quarenta espécies de plantas, incluindo diversos endemismos e plantas com elevado estatuto de proteção. A par com gramíneas e trevos, surgem orquídeas como a erva-língua Serapias lingua e o satirião-real Dactilorrhyza maculata, a rara Paradisea lusitanica, a Ajuga pyramidalis ssp. meonantha e o tomilho Thymus pulegioides.

Diversos roedores e insectívoros, como o rato-cego Microtus lusitanicus e o rato-dos-lameiros Arvicola terrestris, fazem dos lameiros os seus habitats preferenciais. Esta última espécie, em Portugal, apenas é conhecida nos lameiros de altitude do Parque. A petinha-ribeirinha Anthus spinoletta, a cegonha-negra Ciconia nigra, os tartaranhões Circus cyaneus e Circus pygargus ou o lagarto-de-água Lacerta schreiberi, espécies animais de relevância conservacionista, também são utilizadores frequentes destes prados.


Soutos

PNM - souto Telmo Afonso
Souto de castanheiros.

Os soutos de castanheiros Castanea sativa representam a maioria dos terrenos agrícolas que se encontram ocupados com culturas perenes. Ocupam vastos territórios da região e a sua importância é tal que se torna difícil imaginar a vida nestas paragens sem a existência destas frondosas árvores.

Embora a suscetibilidade do castanheiro a pragas e doenças ensombre a existência de muitos soutos, os majestosos castanheiros que ainda abundam na área do Parque são testemunhos vivos da história secular da região e joias valiosas do património natural. Esta importância é acentuada pela ocorrência de diversas espécies de aves e mamíferos como o rabirruivo-de-testa-branca Phoenicurus phoenicurus, que habita exclusivamente nestes ecossistemas, o pardal-francês Petronia petronia, a coruja-do-mato Strix aluco e a geneta Genetta genetta que procuram os castanheiros velhos, de grande porte, com ótimos locais de poiso e numerosas cavidades naturais para se refugiarem ou reproduzirem.

Também diversas espécies de fungos, líquenes, musgos e plantas vasculares encontram nos velhos troncos dos castanheiros ou no chão dos soutos, um dos seus habitats preferenciais. A língua-de-vaca Fistulina hepatica, a armilária-cor-de-mel Armillaria mellea, o mata-moscas Amanita muscaria e o míscaro Boletus edulis são exemplos de macrofungos que podem ser observados nestes locais.

Sardoais

Os bosques de azinheira Quercus rotundifolia, regionalmente conhecidos por sardoais, ocorrem nas áreas menos elevadas do Parque, ao longo de encostas declivosas e soalheiras. Com o aumento da altitude, os sardoais refugiam-se em esporões rochosos cedendo, progressivamente, as encostas mais ricas em solo aos bosques de carvalho-negral Quercus pyrenaica. Ao longo de grande parte dos vales encaixados dos rios e ribeiras que percorrem o Parque, encontram-se interessantes exemplos deste tipo de bosque autóctone.

Associados aos sardoais, surgem diversas plantas e macrofungos adaptados às condições de secura próprias destes locais, alguns com enorme relevância em termos de conservação da Natureza. A gilbardeira Ruscus aculeatus, o jasmim-dos-montes Jasminum fruticans e a cássia-branca Osyris alba são exemplos de plantas raras ou pouco comuns que ocorrem nestes bosques. Entre os macrofungos é possível encontrar espécies como o fungo-de-sapo Lycoperdon perlatum, a estrela-de-terra-higrométrica Astraeus hygrometricus e o cortinário-verde Cortinarius ionochlorus.

Os sardoais são ecossistemas habitualmente pouco perturbados pela ação humana, proporcionando no seu interior refúgio para inúmeras espécies animais, em particular as mais sensíveis à atividade humana. O açor Accipiter gentilis, o gavião Accipiter nisus, o gato-bravo Felis silvestris, a marta Martes martes, o texugo Meles meles e o corço Capreolus capreolus são alguns dos animais que elegem estes bosques como importantes locais de abrigo, reprodução ou alimentação.

Ecossistemas ribeirinhos

PNM - curso água
Vegetação ribeirinha.

Os ecossistemas ribeirinhos são elementos fundamentais da paisagem do Parque e dos mais importantes em termos de conservação da flora e fauna. Embora aparentemente semelhantes, os ecossistemas ribeirinhos apresentam grande variabilidade. Ao longo das linhas de água permanentes, pouco turbulentas e com margens estabilizadas, o dossel arbóreo é dominado por amieiros Alnus glutinosa, freixos Fraxinus angustifolia e choupos-negros Populus nigra enquanto os salgueirais de borrazeira-branca Salix salviifolia preferem as condições oferecidas por cursos de água temporários com margens instáveis, águas rápidas e turbulentas.

Sob o coberto arbóreo, a beneficiar da frescura e humidade ribeirinhas, surge um vasto elenco de plantas onde se incluem diversos fetos, ranúnculus Ranunculus spp. e inúmeras arbustivas como a cerejeira-brava Prunus avium, o sanguinho-de-água Frangula alnus, o pilriteiro Crataegus monogyna e a tramazeira Sorbus aucuparia. Diversas plantas raras e com elevado valor de conservação podem ser encontradas em alguns recantos destes ambientes húmidos e sombrios como o azevinho Ilex aquifolium, a Luzula sylvatica ssp. henriquesii e a Veronica micrantha.

Entre as espécies animais associadas aos cursos de água destacam-se a toupeira-de-água Galemys pyrenaicus, a lontra Lutra lutra, o arminho Mustela erminea, a cegonha-preta Ciconia nigra, a petinha-ribeirinha Anthus spinoletta, o Dom-fafe Pyrrhula pyrrhula, o melro-de-água Cinclus cinclus, o lagarto-de-água Lacerta schreiberi e a rã-ibérica Rana iberica. Diversos outros animais como o lobo-ibérico Canis lupus signatus, o gato-bravo Felis silvestris, a marta Martes martes e a víbora-cornuda Vipera latastei  frequentam regularmente as áreas ribeirinhas encontrando aqui importantes locais de refúgio, de alimentação ou de reprodução.

Vegetação ultrabásica

PNM - vegetação solos ultrabásicos 710-180 pxl
Comunidade de Alyssum serpyllifolium ssp lusitanicum de Samil em solos ultrabásicos

No Parque Natural de Montesinho ocorre um tipo de afloramento rochoso muito raro em Portugal e cujas características condicionam fortemente a existência das plantas. Trata-se de rochas ultrabásicas, sobretudo serpentinitos, que originam solos muito seletivos, com altos níveis de magnésio, baixa disponibilidade de azoto, potássio e fósforo, e elevada toxicidade imposta pela presença de metais pesados como o níquel e o crómio.

A adaptação a tais condições extremas resultou no aparecimento de comunidades vegetais ricas em endemismos, com um elenco de relíquias botânicas algumas, em todo o mundo, unicamente observáveis nesta região. A arméria Armeria eriophylla, a vulnerária Anthyllis sampaiana e a gramínea Avenula pratensis ssp. lusitanica são plantas-relíquia exclusivas das rochas ultrabásicas transmontanas. A santolina Santolina semidentata, a avenca-negra Asplenium adiantum-nigrum ssp. corunnense, o feto Notholaena marantae ssp. marantae e a erva-cabreira Astragalus incanus ssp. nummularioides são exemplos de “preciosidades” serpentinícolas que, em Portugal, apenas podem ser encontradas sobre as rochas ultrabásicas do nordeste de Trás-os-Montes. Também são típicas destes ambientes a cravina Dianthus laricifolius ssp. marizii, a violeta-de-pastor Linaria aeruginea e a salgadeira Alyssum serpyllifolium, esta última considerada como o mais fiável bioindicador das rochas ultrabásicas do Nordeste Transmontano.

Carvalhais

Os bosques de carvalho-negral Quercus pyrenaica são um dos principais tipos de vegetação arbórea autóctone que ocorre no Parque fazendo parte de um contínuo que se prolonga para sul, até à serra da Nogueira. Devido à sua extensão, continuidade e estado de conservação são considerados dos mais importantes bosques de carvalho-negral da Europa, podendo-se observar belíssimos exemplos destes ecossistemas, sobretudo, na zona central do Parque.

Os carvalhais têm uma notável importância na conservação da flora albergando uma grande diversidade de espécies, tanto no seu interior como nas orlas e clareiras. Aqui ocorrem plantas raras em Portugal como a violeta-hirta Viola hirta, a Arabis glabra e a Corydalis cava ssp. cava e outras mais comuns como o vistoso martagão Lilium martagon e o dente-de-cão Erythronium dens-canis.

Quanto aos macrofungos, estudos recentes revelaram que os carvalhais da área do Parque podem ser um reduto importante para a conservação de inúmeras espécies que se encontram em perigo de desaparecimento noutros países da Europa. No vasto elenco de fungos, que imprime um colorido especial aos solos dos carvalhais, a presença de amanita-dos-césares Amanita caesarea, ramárias Ramaria spp. e Boletus regius é indicativa da elevada qualidade ambiental destes bosques e da sua grande importância na salvaguarda destas comunidades.

Estes bosques são também biótopos de grande riqueza específica animal, podendo-se encontrar aqui uma parte muito significativa dos mamíferos, aves, répteis e anfíbios que ocorrem no Parque. Encerram territórios de caça por excelência de aves de rapina como o açor Accipiter gentilis e o gavião Accipiter nisus e locais privilegiados de refúgio para pequenos carnívoros como o gato-bravo Felis silvestris ou a marta Martes martes. Muitas outras espécies como o esquilo Sciurus vulgaris, o texugo Meles meles, o javali Sus scrofa ou o tritão-marmorado Triturus marmoratus utilizam também regularmente os carvalhais como espaços de abrigo, reprodução ou alimentação.

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