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História | Cultura

História | Cultura
Paisagem e património histórico-cultural do Parque Natural de Montesinho.

PNM - ponte medieval no rio Rabaçal - Telmo Afonso
Ponte medieval no rio Rabaçal (® Telmo Afonso).

A fruição deste território por parte das populações gerou, ao longo de milénios, uma riqueza cultural significativa que constitui o seu património comum. Embora cada vez mais expostas aos estímulos exógenos teimam em assumir a sua identidade e a perpetuar esse legado cultural.

O Parque Natural de Montesinho possui um rico património sócio-cultural com práticas quotidianas vindas de usos e costumes ancestrais, embora já marcadas pelas crescentes mobilidades das gentes e pelas inovações tecnológicas. As festas, são um exemplo disso, sendo um elo de ligação entre as aldeias e um pretexto para o reencontro de famílias e amigos. Têm especial valor as antiquíssimas "Festas dos Rapazes" realizadas principalmente na zona da Lombada por altura do Natal ou dos Reis, segundo o costume de cada aldeia. Outra das facetas da cultura regional é a música tradicional, que acompanha sempre as festividades e onde se destacam as sonoridades celtas da gaita de foles.
São notáveis ainda os exemplos de arquitetura popular que, utilizando os materiais característicos de cada região, resultam de milhares de anos de aperfeiçoamento e adaptação ao ambiente. Há também aspetos exclusivamente funcionais na arquitetura popular dignos de destaque, como os pombais, os moinhos e as forjas do povo.

Paisagem

O território do Parque oferece uma paisagem de altitude, com grandes horizontes e usos condicionados pelo clima, num mosaico diversificado predominantemente agrícola nas zonas mais planas, e alternando lameiros e matas de carvalho negral na sucessão de relevos côncavos e convexos das áreas mais declivosas.

A paisagem reparte-se por cinco unidades paisagísticas principais: Matas e matos; Matos e pinhais; Vinhais; Aberta; e Montanha granítica.

As três primeiras unidades – Matas e matos, Matos e pinhais, e Vinhais – representam a quase totalidade do território da Área Protegida. Desta, a unidade Vinhais representa a paisagem mais humanizada característica do Parque, com grande densidade de localidades rurais, e uma ocupação agrícola fortemente marcada por elementos arbóreos e lenhosos que lhe conferem grandes contrates e valor natural. As outras duas representam áreas onde a matriz florestal predomina sobre a agrícola: na primeira – Matas e matos – localizada nos dois terços mais ocidentais do Parque, predominam os carvalhais e matos mais ou menos degradados que lhe estão associados (urzais e giestais); no segundo – Matos e pinhais – predominam os matos de caráter mediterrâneo intercalados por antigas e recentes e extensas reflorestações com pinhal.

As duas restantes unidades de paisagem, embora de extensão diminuta, dizem respeito a singularidades importantes no contexto do Parque. O primeiro caso – Aberta – representa o extremo noroeste do planalto cerealífero caraterístico das Terras de Miranda, este por sua vez na continuação da paisagem do interior da meseta ibérica. No segundo caso – Montanha granítica – trata-se das peculiares cumeadas originadas pelas orogenias hercínicas, identificadas também noutras elevações da região.

1. Matas e matos (Mosaico de carvalhais, soutos e vegetação arbustiva, resultante da sua degradação)
Matas e matos é uma extensa matriz florestal de matas de carvalho e matos associados em vários estádios de degradação desses carvalhais. Matos altos (20%), Carvalhiça (17%), Matos rasteiros (16%) e Pinhais (12%) são as ocupações predominantes. As ocupações agrícolas não representam mais de 13%. Trata-se da mais extensa Unidade de Paisagem do Parque que contacta e une todas as demais unidades consideradas. Esta faixa de território intercala-se entre as áreas graníticas de altitude do norte do Parque – Montanha granítica – e o mosaico agrícola que domina o sul desta Área Protegida – Vinhais. Por tal, e embora sem o caráter pronunciado das outras subunidades, a sua localização, extensão e adjacência confere-lhe alto valor para a conservação da natureza. A paisagem é dominada pelo coberto arbóreo, com matos diversificados que estão na base da pastorícia extensiva de pequenos ruminantes, ovelhas e cabras. As matas são essencialmente carvalhais, as “touças” de carvalho-negral.

Tal como nas restantes unidades, e com exceção apenas da unidade Aberta, a sua extensão coincide em traços largos com determinada geologia; neste caso concreto, bem como na uidade seguinte – Matos e pinhais – trata-se da geologia associada aos Complexos Paraautóctones Superior e Inferior. É portanto uma área xistosa, com declives acentuados e vales encaixados.

2. Matos e Pinhais (Mosaico de repovoamentos florestais e vegetação arbustiva acompanhante)
Esta paisagem ocupa o último quarto oriental do PNM, na área de influência do vale do rio Maçãs. Trata-se de uma sucessão de vales escarpados ocupados por matos espontâneos com caráter mediterrâneo, pinhal e algumas oliveiras em situações favoráveis, com interflúvios planos de utilização cerealífera, olival e vinha. Matos altos (38%), Pinhais (20%), Matos rasteiros (15%) e Herbáceas espontâneas (11%) são as ocupações predominantes. As escassas parcelas agrícolas são pontuadas por elementos arbóreas isolados ou lineares, sendo em casos pontuais, separadas por muros de pedra solta. Os vales encaixados configuram extensões significativas e conectadas de vida silvestre.
Os traços distintivos desta unidade de paisagem são a elevada densidade de manchas e fronteiras das ocupações matos altos e pinhais. De entre estas sobressai a complexidade das formas das manchas de matos altos e pinhais, e a simplicidade de formas das manchas agrícolas e dos carvalhais adultos e outras folhosas. Relativamente ao conjunto do PNM, a configuração dos elementos desta unidade revela uma densidade de manchas relativamente baixa à qual corersponde o valor mais baixo de fronteiras, embora de formas relativamente complexas e a conectividade relativamente aleatórea.

3. Vinhais (Policultura subatlântica)
A recorrência da sua dimensão e desenho está na base do caráter desta paisagem, mais povoada que qualquer uma das outras, com aldeias que se distribuem a distância regular entre si, intimamente ligadas às principais linhas de água. Na envolvente das aldeias, o mosaico torna-se mais apertado e diversificado, incluindo as hortícolas e árvores de fruto. Como pontos fortes, idubitavelmente a sua paisagem rural harmoniosa e rica em elementos de vegetação natural, bem como as disponibiliades hídricas e recursos edáficos proporcionados pelas ancestrais estruturas de conservação de solo (socalcos).

Carvalhal (28%), folhosas (20%), carvalhiça (12%) e sequeiro marginal (11%) predominam sobre um conjunto recorrente e harmonioso de ocupações do solo. Sobre o substrato de rochas básicas e ultrabásicas do Complexo Alóctone Superior, Intermédio e Inferior, particulares da região mas raras no País, trata-se da terceira maior unidade de paisagem do Parque, o genuíno mosaico agrícola da Terra Fria Transmontana, bastante heterogénea com manchas e alinhamentos de castanheiros alternando com lameiros e campos de centeio.

4. Aberta (Policultura extensiva de planalto)
Trata-se de uma paisagem típica de mosaico cultural aberto,com parcelas cerealíferas frequentemente bordejadas por alinhamento arbóreos de carvalho e freixo, mas também olivais, soutos, batata, e forragens. Sequeiro marginal (20%), Sequeiro intensivo (20%) e Sequeiro com matos – pousio (16%) predominam sobre as restantes ocupações de solo. É uma paisagem aberta, distinta pela sua simplicidade e compartimentação ortogonal retilínea. Esta matriz agrícola tem utilização relativamente intensiva pela sua favorável fisiografia e proximidade à cidade de Bragança, entre outras povoações rurais com um número ainda significativo de habitantes. O sequeiro intensivo é intercalado por lameiros periodicamente húmidos e sequeiro extensivo, criando um padrão homogéneo inerente a uma estrutura de propriedade de dimensão superior à restante área do PNM. A sua presença revela-se na área de influência das aldeias de Babe, Caravela, São Julião de Palácios, Deilão, Sacoias, Baçal e Varge, no concelho de Bragança, bem como Soeira, no concelho de Vinhais.

5. Montanha granítica (Mosaico de carvalhais e vidoais de montanha e áreas de vegetação arbustiva resultantes da suadegradação)
Marcada pelo seu substrato granítico, localização fronteiriça e posição periférica, trata-se de uma paisagem grandiosa, a mais alta do Parque, com um topo agreste, rochoso – granito – relativamente extensa e pontuada por enormes blocos de formas arredondadas. É uma paisagem despida de vegetação arbórea, com pouca vegetação arbustiva e alguma pastagem. Herbáceas e Afloramentos rochosos (40%), Matos rasteiros 26%) e Sequeiro marginal (14%) são as ocupações de solo preponderantes. O tom dominante é o cinzento dos granitos, ou o branco da neve no inverno. Trata-se de uma paisagem quase despovoada, na área de influência das povoações de Montesinho (Bragança) e Pinheiro Novo e Pinheiro Velho (Vinhais), com reduzido número de assentos de explorações agrícolas.

Do alto de Montesinho divisa-se grande parte da Terra Fria Transmontana, uma sucessão de elevações, planaltos, encostas e vales. Estes horizontes imensos, aliados à dureza da rocha e à discrição das marcas de ocupação ou usos pelas populações humanas, conferem a esta paisagem uma grandiosidade própria, a que se alia uma sensação de rudeza e isolamento. Na área dos Pinheiros não apresenta a altitude, rudeza e grandiosidade de Montesinho, é um pouco mais humanizada, mas com as mesmas formas arredondadas, intercalando os seus afloramentos rochosos com pastagens e matos, determinando um uso silvopastoril predominante. Algumas áreas de planalto são ocupadas por culturas anuais, sobretudo centeio, mas também triticale, batata e nabo, pontudas por alguns pinhais. Nesta subunidade são também característicos os carvalhais que se desenvolvem ao longo dos vales, um elemento marcante do seu caráter. A neve, já não tão frequente e prolongada como outrora, fornece o contraste que permite às pequenas aldeias, com as suas habitações em granito, serem uma das imagens de referência desta paisagem.

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Património cultural

Uma música pastoril, uma dança, um escrinho, um monumento, um conjunto arquitetónico ou um sítio arqueológico contribuem para a definição da identidade cultural destas gentes.

A humanização do território que hoje constitui o Parque Natural de Montesinho associa-se à materializarão de atos culturais das populações que aí se instalaram. Pelo conhecimento científico de que hoje dispomos, não nos é permitido assinalar a presença humana para além dos períodos neolítico/calcolítico. Os monumentos megalíticos da serra da Corôa e de Donai provam-nos a existência de populações que enterravam os seus mortos sob mamoas, mas pouco mais se poderá aduzir para a ilustração do tipo de ocupação que as populações fizeram nesta área ao longo da Pré-História recente.

O povoamento proto-histórico é mais imponente, contando-se atualmente cerca de três dezenas de povoados fortificados (castros) implantados em castelos graníticos, nos cumes altos dos contrafortes montanhosos, em cabeços destacados no interior de planaltos ou nos relevos em esporão distribuídos ao longo dos vales fluviais. O território destes povoados abrange uma diversidade de recursos naturais que permite às e aos seus habitantes, pertencentes ao povo dos Zoelas, reunir as melhores condições para a prática de uma economia agrossilvo-pastoril.

A conquista do território pelos romanos introduziu alterações estruturais na história do território, nos domínios político-administrativo, socioeconómico, cultural e ideológico. O processo de romanização implicou mudanças estruturais na organização indígena do espaço. Alguns dos antigos castros foram abandonados e surgiu uma rede diversificada de habitats integrados na Civitas Zoelarum. A nova rede de povoamento está em relação com a intensificação das atividades agrícola e mineira e com a criação da via XVII do Itinerário de Antonino, cujo traçado norte se desenha junto ao limite meridional do Parque, passando pela sede da Civitas dos Zoelas, identificada com Castro de Avelãs.

A ocupação germânica parece ter desarticulado a organização administrativa romana deixando esta região entregue ao seu isolamento e favorecendo a consolidação dos laços comunitários que permitiram a sobrevivência de algumas comunidades a que se refere a documentação medieval mais antiga, já que a ocupação muçulmana também parece não ter tido grande expressão neste território, se assim puder ser interpretada a ausência de vestígios dessa época, porque também as lacunas de investigação podem distorcer esta visão.

É com o advento da Nacionalidade que aumenta a massa informativa acerca da História deste território, pois a documentação escrita torna-se mais frequente. As políticas régias da I dinastia portuguesa refletiram-se, sobretudo, na consolidação das fronteiras e na reorganização do povoamento e dos territórios. Fomentou-se a organização concelhia - D. Sancho I concede foral a Bragança (1187), D. Afonso III a Vinhais (1253) e D. Dinis a Paçó (1310) e a Lomba (1311 e 1324) - criaram-se as Vilas Novas de Vinhais e S. João de Lomba e construíram-se castelos em Bragança e Vinhais. As Inquirições de 1258 documentam a presença senhorial na região dos mosteiro cisterciense leonino de S. Martín de Castañeda e do mosteiro beneditino de Castro de Avelãs que, apesar das usurpações aos domínios realengos, jogaram importante papel nesta reorganização do povoamento.

A passagem à Época Moderna não se identifica com grandes obras ou edifícios, mas nos séculos XVII e XVIII assiste-se a grande afã construtivo um pouco à semelhança do que se passa por toda a Província de Trás-os-Montes. Erguem-se solares e capelas e constroem-se ou renovam-se igrejas cujo interior se reveste de talha dourada.

Durante a Baixa Idade Média e a Época Moderna o território do Parque Natural de Montesinho viu-se retalhado pelos antigos concelhos de Lomba, Vinhais, Paçó e Bragança. A reduzida geografia dos concelhos de Lomba e Paçó, associada à sua incapacidade de autossustento, ditaram a sua extinção aquando das reformas liberais da primeira metade do século XIX.

Os recursos naturais disponíveis parecem ter, ao longo da História, ditado a base económica das comunidades. A atividade agrossilvícola e a criação de gado foram, e continuam a ser, basilares na economia das gentes, de par com a exploração de recursos mineiros, nomeadamente do ouro, do ferro, do estanho e do volfrâmio.

Atualmente, o povoamento caracteriza-se pela sua concentração.

As aldeias surgem maioritariamente implantadas em vales abertos ou a meia encosta, podendo, no entanto, ser encontradas no interior dos planaltos ou, extraordinariamente, no topo de cabeços.

A configuração que o aglomerado adquire resulta, regra geral, das condições geomorfológicas do território, aproveitando-as a população para edificar com uma maior economia de meios. Em termos morfológicos, os aglomerados resultam da disposição dos edifícios em núcleos, formando conjuntos compactos de construção que se vão organizando continuamente, deixando entre si os arruamentos que, simultaneamente, os delimitam e estruturam.
O património cultural das gentes do Parque Natural de Montesinho ultrapassa a sua própria história e a sua presença marcante na paisagem natural, mantendo-se viva num conjunto de práticas que se revestem de alguma imaterialidade.

As festas anuais animam, geralmente em época estival, um fim de semana ou dia santo em cada uma das aldeias, por altura da celebração do dia do seu padroeiro. O sentimento religioso destas comunidades mistura-se, por vezes, com atitudes pagãs, como as que dão vida às cíclicas Festas dos Rapazes, que parecem ter origem remota em ritos iniciáticos e que a Igreja sacralizou ao associá-los à celebração do Mártir Santo Estevão. As sonoridades das gaitas de foles e dos bombos ecoam pelas ruas nos dias de festa associando-se ao misticismo dos ritos católicos da celebração litúrgica ou das procissões que atravessam as ruas da aldeia. Noutras ocasiões, enchem os momentos de pausa ligados ao ciclo dos trabalhos do campo.

A transformação de matérias-primas locais permite às populações disporem de um conjunto variado de produções artesanais que marcam a sua cultura material móvel.

A maioria dos objetos produzidos artesanalmente continuam a satisfazer algumas das necessidades quotidianas, daí que ainda permaneça a arte de os produzir, ainda que, por vezes, seja apenas de forma vestigial.

A tecelagem do linho e da lã representaram, até há algumas décadas, quase que a única forma de produção de agasalhos ou de produção de peças de cozinha, de cama ou para alindar soalhos. Também a cestaria, de vime, de serôdio e silva ou de lâminas de castanho, mantém a sua atualidade, quer em usos domésticos, quer nos trabalhos do campo.

Os trabalhos em metal privilegiam o uso de zinco e de latão com que se produzem alambiques, caldeiros e panelas, entre outros objetos, vendidos na oficina do artesão ou nas feiras de Vinhais e Bragança.

Os trabalhos da madeira foram já bem mais importantes, quando o carro de bois era o meio de transporte indispensável e as casas tradicionais não dispensavam as varandas, portas, portões e janelas em madeira onde se lavravam os padrões decorativos tradicionais; hoje, os trabalhos em madeira têm sobretudo uma função decorativa como patenteiam as máscaras ou as esculturas que utilizam a raiz de urze como matéria-prima.

A dinâmica da sociedade conduz necessariamente a estados de evolução, no entanto, as populações do Parque Natural de Montesinho acusam um certo conservadorismo traduzível no zelo que demonstram pelo seu património construído comunitário, no respeito pelos sítios arqueológicos ou na manutenção de certas tradições e práticas económicas e sociais.

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Património construído

A importância do património construído desta região assenta na riqueza da arquitetura popular - caracterizada por uma variedade de linhas espaciais, volumétricas, tipológicas, construtivas, etc., específicas de cada uma das edificações, fruto da função a que se destinam, dos materias que abundam na vizinhança, e, primordialmente, da capacidade de inovação que o mestre-pedreiro, pela sua experiência acumulada, imprime a cada construção - dialogando com outras construções que apresentam uma linguagem arquitetónica de raíz erudita, nomeadamente as igrejas, capelas e casas solarengas.

No território do Parque estão localizados diversos aglomerados rurais edificados com os materiais existentes na região que se organizam espacialmente de forma concentrada, constituindo densos quarteirões de construções.

Na maioria dos aglomerados predominam as construções em xisto, já que o granito apenas aflora pontualmente na serra de Montesinho, na parte setentrional da serra da Corôa e na região dos Pinheiros. Apenas as aldeias de Pinheiro Novo e Pinheiro Velho, Moimenta, Montesinho e Soutelo são edificadas com silhares de granito retirados de uma ou outra pedreira ou talhados a partir de afloramentos que irrompem do solo. Nas restantes aldeias é utilizado o xisto em paredes de paramento duplo, construídas com pedras sobrepostas e argamassas pobres de terra argilosa. Em ambos os casos, empregam-se madeiras autóctones, o carvalho e o castanho, na armação dos telhados, nas estruturas dos pisos e soalhos ou nos vãos de portas e janelas e no seu guarnecimento. Nas coberturas é usual a utilização da lousa, sobretudo a Oriente do rio Tuela e na zona dos Pinheiros, enquanto que na Lomba, nas vertentes meridionais da serra da Corôa e aldeias mais próximas dos aglomerados urbanos de Bragança e Vinhais se utiliza preferencialmente a telha cerâmica. É também frequente a associação de telha cerâmica e de lousa no mesmo telhado.

Em termos volumétricos, as construções existentes adotam uma forma regular, perfeitamente definida e bastante simples, podendo tornar-se mais complexa em virtude da composição resultante da justaposição dos distintos edifícios ou em consequência da sua complexidade funcional.

O estereótipo da casa tradicional é composto por dois pisos, aproveitando, sempre que possível, a pendente do terreno para permitir um acesso térreo a ambos. O piso inferior destina-se a curral (lojas), celeiro e adega, enquanto que o piso superior é destinado a habitação. A varanda, servida por uma escada de madeira ou pedra paralela ao edifício, é presença constante no alçado principal, como se de mais uma divisão da casa de tratasse. A cobertura do edifício é maioritariamente formalizada a duas águas, de suave pendente, prolongando-se uma delas sobre o espaço de varanda. No entanto, as coberturas podem adotar formas mais ou menos complexas, o que se prende de forma direta com a estrutura, dimensão e localização do edifício.

De permeio com as habitações ou nos extremos das aldeias surgem edifícios que se distinguem pela sua funcionalidade e pela sua utilização comunitária, nomeadamente a forja, o lagar, o forno de cozer o pão, ou outros, em função das necessidades de cada povoação e do sistema de organização da sua população. Estas estruturas aparecem normalmente instaladas em edifícios rudes, de pequenas dimensões, com cobertura de uma só água, dispondo apenas de uma porta e de um eventual janelo.

Dispersas na paisagem, na envolvente dos aglomerados, aparecem os pombais, construções de pequena dimensão, em forma de ferradura, ou circulares, geralmente caiadas de branco e dispondo de um único vão de acesso.
Uma outra nota de humanização da paisagem é deixada pelos muitos moinhos, privados ou comunitários, que bordejam os cursos de água cujo caudal é suficiente para imprimir movimento às moendas. Tal como a generalidade dos edifícios comunitários, a maioria dos moinhos instalam-se em construções rudes de pequenas dimensões, variando a sua dimensão em função da existência ou inexistência de instalações anexas às do mecanismo de moagem e do número destes mecanismos instalados.

Este património edificado possui maioritariamente características arquitetónicas vernaculares, embora dialogando com outras construções que apresentam uma linguagem arquitetónica de raíz erudita, nomeadamente as igrejas, capelas e casas solarengas.

A alteração de costumes e as sucessivas “campanhas de emigração” que afetaram esta área, bem como o regresso, ainda que temporário, desta população, o aumento do poder económico da generalidade da população e, ainda, o aparecimento no mercado de novos materiais de construção a custos acessíveis, aliados a outros aspetos, como a utilização de modelos arquitetónicos importados com características distintas das locais (nomeadamente no que respeita à implantação dos edifícios, à volumetria utilizada, à tipologia e à decoração), a falta de acompanhamento técnico adequado e a dispensa de apresentação de projetos técnicos junto das autoridades competentes (autarquias) nos processos de licenciamento de obras, assistiu-se ao aparecimento de um crescente número de “novos estilos” localizados, maioritariamente, no perímetro dos aglomerados rurais.

Estas circunstâncias originaram no conjunto edificado do Parque um estado considerado atualmente como passageiro que pode caracterizar-se pela degradação e abandono de muitos dos edifícios existentes (comunitários ou não) e pelo aparecimento de diversos outros, que pelas suas características, assumem um papel dissonante no seio dos aglomerados.

Atualmente, na sequência de uma maior sensibilização da população para os seus valores culturais, assiste-se ao aparecimento de um crescente número de iniciativas de preservação e valorização dos valores da arquitetura popular levadas a cabo pelas entidades institucionais, bem como pela população enquanto entidade privada.

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Atividades humanas 

A principal atividade económica desta área é a agricultura, sendo que, na maioria dos casos, assume mais o caráter de agricultura de complemento de outras atividades profissionais ou da reforma, do que o de atividade profissional exclusiva. As explorações agrícolas existentes no Parque são, na sua quase totalidade, de tipo familiar, trabalhadas, quase exclusivamente, por conta própria, sendo a superfície agrícola utilizada propriedade das e dos agricultores ou explorada através de acordos informais, intra ou extra familiares, que possibilitam às e aos agricultores o acesso ao uso da terra sem que disponham da propriedade plena ou que recorram ao arrendamento formal.

As culturas e os tipos de utilização do solo dispõem-se numa estrutura aureolar, em função de um gradiente de fertilidade, que determina a configuração da paisagem agrária e vegetal. Podem identificar-se três grandes auréolas que se interpenetram: as hortas; os terrenos de cereal de sequeiro; e os matos. Ressalta a elevada percentagem ocupada pelas culturas de sequeiro, essencialmente culturas arvenses, bem como pelas áreas de incultos, sendo reduzida a referente a culturas de regadio.

Próximas dos povoados situam-se as hortas, terrenos muito férteis mercê de abundantes estrumações e disponibilidade de água para rega, onde é cultivada uma enorme variedade de produtos para consumo diário das e dos proprietários.

Igualmente instalados em terrenos férteis, normalmente solos de acumulação, profundos, onde a fertilidade elevada é garantida pelo arrastamento de nutrientes de zonas mais altas e onde a disponibilidade de água para rega é significativa, os lameiros assumem um papel central nos sistemas de produção agrícola e, por isso, são considerados um dos tipos de terreno mais valorizados na economia rural tradicional.

Intimamente associada aos lameiros encontra-se a atividade pecuária, praticada em regime extensivo, centrada em três tipos de produção: bovinicultura, pequenos ruminantes, sobretudo ovinos, e pequenas produções de caráter complementar, onde se incluem a criação de suínos, coelhos e aves de capoeira. Têm solar nesta zona, a raça bovina Mirandesa e a raça ovina Churra Galega Bragançana, cuja produção é fator de sustento da população e diminuição do êxodo rural.

De entre as produções de caráter complementar, os suínos da raça Bísara têm vindo a conhecer um desenvolvimento crescente e, consequentemente, a assumir um papel importante no rendimento de algumas famílias. A proteção de alguns produtos regionais que têm por base a carne destes suínos e a implementação das cozinhas regionais de fumeiro tornam expectável o crescimento desta produção.

Desde há muito tempo associado à alimentação dos animais domésticos, principalmente do porco da raça Bísara, o castanheiro, marca indelevelmente a paisagem e a economia destas gentes. Através da comercialização do seu fruto, a castanha, tem vindo a assumir-se como um complemento significativamente interessante, sendo uma das principais fontes de receitas no atual quadro de utilização da terra. Estas receitas são reforçadas pela venda da sua madeira que é aqui explorada em alto fuste, para madeira de grandes dimensões, e num sistema de talhadia, para madeira de pequenas dimensões.

Assentes na promoção e valorização dos produtos da terra, e direcionados para a dinamização socioeconómica desta região, realizam-se anualmente algumas feiras que procurando novas dinâmicas, incluindo a dimensão turística, integram novas perspetivas para o desenvolvimento local. De entre elas destacam-se as feiras do fumeiro e da castanha.

Baseado num conjunto de potencialidades associadas aos valores naturais e culturais desta Área Protegida, o Turismo, em particular o segmento do Turismo de Natureza, está em moderado desenvolvimento e com necessidade de ser impulsionado de modo a adquirir capacidade de afirmação e de competitividade. A oferta de alojamento turístico dentro da área do Parque começou pela mão da própria administração do Parque, pouco tempo após a sua criação, e tem vindo a ser seguida pela iniciativa privada, contando hoje com cerca de 200 camas em Casas de Natureza, Turismo em Espaço Rural e Moradias Turísticas e 790 lugares na modalidade de campismo nos três parques de campismo, sendo dois localizados dentro da área do Parque e outro em zona limítrofe.

As restantes atividades económicas com alguma expressão na área do Parque são aquelas que se relacionam com o pequeno comércio (cafés, snack-bares, mercearias) e com a construção civil. Excecionalmente, aparecem alguns negócios com um nível de complexidade mais elevado, tais como a venda de eletrodomésticos e ourivesaria, uma funerária, oficinas de carpintaria e serralharia e padarias, mas são sobretudo as atividades relacionadas com a construção civil que mais emprego geram. Várias aldeias contam com um ou mais pequenos empreiteiros/prestadores de serviços nas áreas da construção.

No seu conjunto, estas atividades ocupam algumas centenas de pessoas no território do Parque e são responsáveis pela manutenção de algum dinamismo económico.

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