História | Cultura

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Paisagem e património histórico-cultural da Reserva Natural do Estuário do Tejo.

Barco na vala da Saragoça CGV
Barco na vala da Saragoça. (® Cristina Girão Vieira).

Paisagem

A aparente monotonia da paisagem do Estuário do Tejo esconde em si uma riqueza natural e cultural que só se revela com a sua observação direta.

Desde as águas calmas do estuário, passando pelas extensas zonas cobertas pela vegetação do sapal até à planura dos campos agrícolas e das vastas pastagens da lezíria, a Reserva Natural do Estuário do Tejo apresenta uma elevada riqueza paisagística, característica de ambientes de transição entre o meio aquático e o meio terrestre.

O maneio do gado executado pelos campinos, as romarias e as atividades salineira e piscatória, entre outras, constituem valores que compõem e dão coerência a este espaço natural.

Atividades


RNET - Montado RNET - barcos tradicionais
Montado e barcos típicos numa velha foto...

Os estuários, devido, por um lado, à amenidade do seu clima e abundância de recursos alimentares  e, por outro, pelo facto de constituírem zonas charneira entre o interior e o mar, por eles circulando parte importante das trocas comerciais são, desde sempre, local privilegiado para a fixação das populações.

A presença humana no estuário do Tejo está atestada desde o Paleolítico. Recentemente, junto ao acesso sul da ponte Vasco da Gama, foi encontrada uma importante jazida datada do Paleolítico Médio. Os conhecidos "concheiros de Muge" remontam ao Mesolítico. Os romanos, primeiro, os árabes, depois, frequentaram as margens do Tejo. Depois da reconquista, a cidade de Lisboa assumiu-se como fator de consolidação da recém obtida independência e, mais tarde, foi do Tejo que partiram as naus que haveriam de dar outros mundos ao mundo. Atualmente, o estuário constitui o principal elemento aglutinador da Área Metropolitana de Lisboa, o mesmo é dizer estar associado aos interesses diretos de aproximadamente um quarto da população portuguesa.

Agricultura e pecuária
Os campos agrícolas na Leziria Sul, irrigados por uma rede de valas de água doce que drenam para o Tejo e Sorraia, suportam culturas de regadio, sequeiro e arrozais. Na Reserva, extensas áreas de pastagem acolhem efetivos pecuários com destaque para o gado de lide - o touro bravo - que, juntamente com o cavalo lusitano, são a imagem de marca da lezíria ribatejana.

Atividade salineira
Durante milénios, a atividade salineira foi uma das principais fontes de rendimento da região e do país. Progressivamente foi se verificando a desativação das salinas, devido à importação de sal proveniente do exterior e aos progressos registados nos meios de conservação de alimentos, sendo sobretudo as aves aquáticas quem mais se ressente da perda de parte do seu valor.

Pesca
O sável Alosa alosa atraiu inúmeros pescadores da zona de Vieira de Leiria e da região de Aveiro para o estuário, que também era abundante em numerosas outras espécies, proliferando, inclusivé, os bancos de ostras. No entanto, os seus quantitativos foram dizimados, ou seriamente postos em causa, por poluições de origem urbana, industrial e agrícola. A atividade piscatória reduziu-se de forma drástica e, hoje, apenas algumas barcas se dedicam à captura sobretudo de linguado, robalo e enguia. O retorno de espécies quase desaparecidas, caso do charroco Halobatrachus didactylus, parece apontar para uma certa recuperação da riqueza piscatória.  

Património cultural


RNET - salinas com Artemia salina Manada vacas e bezerros CGV
Salinas com a água avermelhada devido à Artemia salina e manada de vacas na lezíria (2ª foto ® Cristina Girão Vieira).
 

O património cultural aqui existente encontra-se sobretudo associado às atividades tradicionais. Assim, na lezíria destaca-se o maioral ou campino, que controla o gado (touros e cavalos) e o transfere de umas pastagens para outras, existindo toda uma tradição associada ao seu traje.

As salinas constituem as estruturas físicas de uma atividade que moldou a paisagem e era detentora de uma cultura própria de saberes e viveres transmitidos de geração em geração. É com o sal fino - a flor de sal - obtido no início da safra que se preparam os "pães de sal", prensados em pequenas formas paralelepipédicas onde se encontram gravados elementos alusivos aos diversos valores da região, a maioria das vezes o ferro dos(as) proprietários(as) da terra. Ao “ouro-branco”, outrora recolhido no Tejo está ligado um papel importante nas transações comerciais entre Portugal e o norte da Europa, na época.

As diferentes artes de pesca (redes, armadilhas e aparelhos) revelam o engenho das gentes que no estuário labutam, capturando o seu sustento. Entre os núcleos de pescadores, destacam-se as comunidades de avieiros e varinos, sediados em Alhandra, Póvoa de Sta. Iria e Vila Franca de Xira. Eram típicos os seus portos de pesca palafitas (construídos sobre a água), constituídos por um conjunto de cais paralelos entre si e perpendiculares ao rio. A evolução dos barcos de pesca e transporte no rio também constitui parte do património cultural a explorar.

O intenso tráfego fluvial de outros tempos, relacionado com a atividade pesqueira e com o transporte de pessoas e bens, era animado por um conjunto diversificado de embarcações como fragatas, varinos, faluas, botes, barcos dos moinhos, barcos dos moios, catraios, botes de pinho, batéis, botes de meia quilha, botes cacilheiros, barcos, canoas, bateiras, barcos de água acima, etc. A notável variedade de forma das embarcações, resultante da criatividade dos nossos estaleiros navais e do estilo próprio de cada um representa um elemento cultural de grande interesse. Nos anos 80 do séc. XX, visando contrariar o desaparecimento da fragata, do varino e da falua, as autarquias ribeirinhas de Seixal, Moita, Alcochete e Vila Franca de Xira recuperaram algumas embarcações tradicionais, reconvertendo-as para atividades de turismo, recreio ou lazer e de educação ambiental.

RNET - Ermida de Nossa Senhora de Alcamé RNET - Alcochete Ig Misericórdia
A Ermida de Nossa Senhora de Alcamé, na lezíria | Capela de N. Sra. da Vida (antiga capela do Espírito Santo, do séc. XVI), em Alcochete, Imóvel de Interesse Público.

Património construído

Não existindo construções de relevo no interior da Reserva, o património construído é sobretudo importante devido à sua ligação com o património cultural.

A Ermida de Nossa Senhora de Alcamé foi construída no séc. XVIII, em estilo neoclássico e monumental, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, era o espaço apropriado para as e os trabalhadores das lezírias ali cumprirem as suas obrigações religiosas. Localiza-se na Zona de Proteção Especial junto ao limite norte da Reserva Natural. No final do séc. XIX, realizavam-se aqui, episodicamente, festas, organizadas por uma comissão de festeiros de que faziam parte lavradores de Vila Franca de Xira, Alhandra e Alverca. Nos anos 40, do séc. XX um grupo de proprietários(as) retomou a organização das festas associando-as às do “Colete Encarnado” de Vila Franca de Xira. Nos últimos anos, a Associação de Varinos de Vila Franca de Xira tem dinamizado a realização da romaria pelo 17 de junho, com a participação de outras associações locais. Os campinos, acompanhados pela banda e o cortejo, transportam o andor com a imagem da N. Sra. da Conceição desde a Igreja Matriz até ao cais, onde se realiza a cerimónia de embarque. A procissão prossegue pelo rio, em embarcações tradicionais todas engalanadas, até ao cais do Marquês. Aí, o andor é transferido para uma charrete, seguindo o cortejo até à ermida, onde se realizam as cerimónias religiosas, que incluem a benção dos gados e o arraial com apresentação de ranchos folclóricos e atividades associadas aos cabrestos e campinos.

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