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Paisagem e património histórico-cultural da Reserva Natural do Paul de Arzila.

RNPA  - paul com bunho
O bunho no paul, usado no fabrico tradicional de esteiras. 

Paisagem

A paisagem reflete o equilíbrio/harmonia resultante da intervenção humana no meio natural. A apreciação da sua qualidade, do seu valor, através do estabelecimento e caracterização de manchas/unidades homogéneas de acordo com determinados critérios, contribui para a avaliação das disfunções existentes, essencial na equação de propostas de ordenamento do território.

A elaboração da Carta dos Valores Paisagísticos da Reserva teve por base a classificação Campo e Monte, referenciada para a região do Baixo Mondego por Coelho, M. H. (1983), e, por Andresen, T., Curado, M. J. et al. (1999). Temos assim duas unidades: campo; e monte.

Campo
Corresponde à zona que, geomorfologicamente, constitui a planície aluvial, sujeita a inundação, com encharcamento permanente em alguns locais. Os solos são evoluídos, com origem aluvionar (aluviossolos modernos calcários e não calcários), hidromórficos, com textura mediana a pesada. Aqui se diferenciam, quanto ao uso do solo, duas áreas:

  • incultos, onde se distingue uma área central ocupada por um denso caniçal (com pequenos lagos e nascentes no interior), uma área menor de bunhal, e áreas dispersas de bosquetes aluvionares e ripícolas, de espécies arbóreas características das margens dos rios e de zonas húmidas, localizados essencialmente nas orlas; e
  • agrícola, situada a norte e a sul, caracteriza-se, numa parte significativa da área, por um sistema agrícola de produção intensiva, onde predomina a cultura do milho, utilizando média tecnologia, e numa pequena área a cultura do arroz, onde é utilizada alta tecnologia.

Monte
Corresponde às encostas que ladeiam a planície aluvial, caracterizadas quanto à pedologia essencialmente por solos mediterrânicos pardos a avermelhados, de materiais não calcários, para-hidromórficos, e por solos litólicos, de arenitos finos a grosseiros, não húmicos, pouco evoluídos. Quanto ao uso do solo, distinguem-se 3 áreas:

  • florestal, que constitui o tipo de ocupação do solo predominante, e coincidente com as zonas de declive mais acentuado, caracterizando-se essencialmente por áreas de folhosas autóctones e áreas de resinosas e folhosas exóticas com sub-coberto de espécies autóctones;
  • agrícola, que surge nas áreas de declive menos acentuado, circundando os núcleos urbanos, onde se desenvolve um sistema policultural tradicional, constituído por parcelas de culturas hortícolas com vinha em bordadura, árvores de fruto e oliveiras dispersas; e
  • urbana, constituída por aglomerados e construções dispersas, de localização adjacente às estradas municipais existentes.

 

Atividades

RNPA - Azenha Pinus pinaster Pinheiro-bravo pinhas
Uma velha azenha e pinhas de pinheiro-bravo Pinus pinaster.

Outrora, o paul constituiu a grande fonte de rendimento para a população das povoações envolventes, pois cultivavam os terrenos, caçavam, pescavam e colhiam o bunho e o junção, com os quais manufaturavam as esteiras. A floresta fornecia a lenha, utilizada como combustível, e os matos, utilizados para as camas dos animais, eram, posteriormente, transformados em estrume com o qual fertilizavam as terras.

Com o desenvolvimento económico e a crescente oferta de emprego, perspetivando uma melhoria nas condições de vida, verifica-se um progressivo abandono da agricultura como atividade principal, sendo hoje praticada como atividade complementar por pessoas empregadas nos setores secundário e terciário. É neste contexto que a ocupação agrícola e florestal do solo sofre grandes alterações. Assiste-se a uma redução da superfície agrícola utilizada, onde se desenvolvia uma agricultura para autoconsumo, e a um aumento da área florestal, que, mercê do interesse económico, adquire características diferentes, nomeadamente substituem-se espécies autóctones, como o carvalho e o sobreiro, por povoamentos puros e/ou mistos de eucalipto e pinheiro.
 

Património cultural

O fabrico de esteiras

Etnograficamente, Arzila caracteriza-se pela manufatura de esteiras, atividade hoje reduzida a ofício subsidiário. A oeste da povoação situa-se o paul e é no seu interior que se encontra o bunho Scirpus lacustris, matéria prima essencial ao fabrico das esteiras.

O corte do bunho é efetuado no fim do verão, utilizando o “foição”, sendo uma tarefa de grande dureza. Seguidamente, procede-se aos trabalhos de escolha, ajuntamento e recolha, assim como aos cuidados com a secagem. É também cortado o junção Carex riparia para fazer a “baraça”, utilizada também no fabrico das esteiras.

Bunho a secar no paul Medas de bunho
Bunho Scirpus lacustris a secar, após o corte, e as medas.

As esteiras são feitas num tear rudimentar, composto por duas varas laterais – os canenhos – encostadas a uma parede, que sustentam uma tábua horizontal com entalhes, onde é colocado o bunho, prendendo-se com as “baraças” a cujas pontas foram amarradas pedras, com função de contrapesos. Dos dois molhos de bunho encostados aos “canenhos”, a esteireira vai retirando as hastes, colocando-as horizontalmente na tábua sobre as “baraças”; estas são viradas alternadamente, as do lado direito com as do lado esquerdo, trocando as pedras da frente com as pedras de trás. Ao colocar as últimas hastes de bunho, a esteireira retira as pedras e ata as pontas da “baraça”.

Esteireira a colocar pedras que servem de contrapeso Tear para fabrico de esteiras
Esteireira a colocar pedras que servem de contrapeso e o tear com parte de uma esteira.

A melhoria das condições económicas, através da ocupação nos setores secundário e terciário, aliada à dureza do trabalho do corte de bunho, levou a uma progressiva diminuição do seu fabrico.

Com a Reserva Natural procura-se incentivar esta atividade artesanal, não só pela sua componente económica e social, mas também pela manutenção e conservação do ecossistema.

Esteiras na sede da RNPA RNPA - bunho no paul
Esteiras na sede da Reserva Natural e o bunho que lhes deu origem.

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