Fauna

Fauna
Fauna da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

RNSCMVRSA - Pernilongo Himantopus himantopus AG
Pernilongo Himantopus himantopus (® Agostinho Gomes).

O sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António é reconhecido pela sua importância para a reprodução de várias espécies de peixes funciona como um viveiro natural e como local de passagem, invernada e nidificação de numerosas espécies de avifauna, sendo uma das áreas de maior interesse ornitológico do nosso país.

Aves
As aves constituem o grupo faunístico melhor estudado na Reserva e zonas envolventes, nomeadamente o grupo das aves aquáticas. De facto, quer em termos de ocorrência de número de espécies com estatuto de conservação desfavorável quer em relevância a nível nacional da área de estudo para essas e outras espécies, a Classe das Aves atribui um papel de destaque a esta Reserva no contexto nacional.

Aqui ocorrem regularmente 169 espécies de aves, na sua maioria aves aquáticas invernantes e migradoras. Existem ainda registos de mais 17 espécies que ocorreram de forma ocasional.

Algumas das aves que aqui ocorrem são emblemáticas, pela sua presença e beleza, destacando-se para além do pernilongo, que é o símbolo da Reserva, as seguintes espécies:

  • colhereiro Platalea leucorodia – ocorre como invernante ou durante as migrações, apresentando, nestas épocas, concentrações relevantes a nível global. É uma espécie ameaçada a nível europeu. A população invernante apresenta o estatuto “Quase Ameaçado” em Portugal.
     
  • flamingo Phoenicopterus roseus - é das poucas regiões do país onde a espécie ocorre de forma regular. Ocorre como invernante ou durante as migrações, apresentando, então, concentrações relevantes a nível global. É uma espécie ameaçada a nível europeu. Frequenta sobretudo as salinas e os esteiros de água de maior dimensão. A população invernante apresenta o estatuto de “Vulnerável” em Portugal.
     
  • cegonha-branca Ciconia ciconia – é residente e apresenta populações importantes a nível europeu. Ocorre sobretudo nos campos encharcados envolventes às salinas. Apresenta o estatuto “Pouco Preocupante” em Portugal.
     

Platalea leucorodia Colhereiro voo CGV Phoenicopterus roseus Flamingos em voo CGV
Colhereiro Platalea leucorodia em voo e o bailado de flamingos Phoenicopterus roseus (® Cristina Girão Vieira)

Aves com elevado valor de conservação
Estudos recentes identificaram as espécies para as quais a Reserva é mais relevante para a sua conservação a nível regional, nacional e internacional. Seguidamente, apresenta-se uma lista destas espécies, bem como algumas das suas características biológicas e ecológicas mais relevantes.

  • pernilongo Himantopus himantopus – residente na área da Reserva. Os mais importantes núcleos reprodutores são no estuário do Sado, Ria Formosa e nesta Reserva. Apresenta o estatuto “Pouco Preocupante” em Portugal;
     
  • alfaiate Recurvirostra avosetta – apresenta populações nidificantes e invernantes. A sua nidificação apenas apresenta alguma regularidade no sotavento algarvio, na área da Reserva e no Parque Natural da Ria Formosa. Alberga assim uma importante fração dos efetivos nidificantes nacionais, sendo também uma área importante a nível europeu. Apresenta o estatuto “Quase Ameaçado” em Portugal;
     
  • perdiz-do-mar Glareola pratincola – nidificante rara na área de estudo. Instala os seus ninhos nas clareiras de solo nú de sapal. A Reserva é importante para a espécie a nível europeu. Apresenta o estatuto “Vulnerável” em Portugal;
     
  • alcaravão Burhinus oedicnemus – apresenta populações nidificantes e invernantes; foram registados cerca de 10 casais nidificantes em 2002 na área da Reserva, no entanto estima-se que este número possa ser superior. Apresenta o estatuto “Vulnerável” em Portugal;
     
  • andorinha-do-mar-anã Sternula albifrons (syn Sterna albiforns)  – nidificante na área de estudo. Em 2000, foram estimados 51 a 82 casais reprodutores na área da Reserva, tendo-se contabilizado um máximo de 59 posturas nas salinas de Castro Marim e 23 nas salinas do Cerro do Bufo. É um dos locais mais importantes do país para esta espécie, por albergar uma importante fracção dos efectivos nidificantes nacionais, tendo também relevância a nível europeu. Apresenta o estatuto “Vulnerável” em Portugal;
     
  • gaivota de Audouin Larus audouinii – nidificante rara. Um dos únicos dois locais de nidificação no país, sendo também uma zona relevante a nível europeu. Ocorrem também durante a migração pós-nupcial. Está classificada como “Vulnerável”, devido ao reduzido número de casais reprodutores;
     
  • sisão Tetrax tetrax – nidificante raro na área da Reserva (entre 10-20 casais em 2002, apresenta também uma população invernante). Frequenta os sapais secos, ou secundários, por vezes utilizados como pastagens. Apresenta o estatuto “Vulnerável” em Portugal;
     
  • calhadrinha-das-marismas Callandrela rufescens – único local de nidificação conhecido em Portugal, apresentou cerca de 70-76 casais em 2002. Utiliza os sapais secos ou secundários, por vezes utilizados como pastagens. Apresenta o estatuto “Criticamente em Perigo” em Portugal;
     
  • tartaranhão-caçador Cyrcus pygargus – nidificante raro na área da Reserva. Utiliza todos os sapais ao longo do Guadiana como áreas de caça, bem como salinas e alguns campos agrícolas. Apresenta o estatuto “Em Perigo” em Portugal; e
     
  • pato-branco Tadorna tadorna – é um invernante raro em Portugal e na área da Reserva apresenta uma proporção importante do seu efetivo nacional.

Tadorna tadorna Pato-branco CGV Sternula albifrons Chilreta Andorinha-do-mar-anã voo CGV
Tadorna ou pato-branco Tadorna tadorna e chilreta ou andorinha-do-mar-anã Sternula albifrons (® Cristina Girão Vieira). 

Aves aquáticas
Para além das espécies reconhecidas como tendo maior valor de conservação, a Reserva é também importante para um conjunto mais alargado de aves aquáticas, as quais a utilizam, essencialmente, durante os períodos pós-reprodutor e invernal. As aves aquáticas utilizam fundamentalmente as salinas como zonas de repouso de preia-mar mas também como habitat de alimentação; algumas espécies alimentam-se preferencialmente nas zonas intertidais. Destas aves, destacam-se as seguintes espécies, essencialmente devido à representatividade das suas populações no contexto nacional:

  • combatente Philomachus pugnax  – espécie pouco comum em Portugal, a área da Reserva parece assumir bastante importância durante este período. Em Portugal tem o estatuto de “Em Perigo”;
     
  • perna-vermelha-escuro Tringa erythropus – espécie pouco comum em Portugal, ocorre durante o inverno e épocas de migração. Castro Marim alberga cerca de 20% da população invernante. Apresenta o estatuto de “Vulnerável” em Portugal; e
     
  • perna-vermelha Trynga totanus – em Portugal é uma espécie essencialmente invernante. A regularidade com que se reproduz na área da Reserva é ainda mal conhecida, principalmente devido ao facto da sua nidificação ser difícil de comprovar. A população nidificante em Portugal apresenta o estatuto “Criticamente Em Perigo”, enquanto que o da população invernante é “Pouco Preocupante”.
     

Philomachus pugnax Combatente CGV Tringa totanus Perna-vermelha CGV
Combatente Philomachus pugnax e perna-vermelha Trynga totanus (® Cristina Girão Vieira).

Aves dos sapais secos (secundários)
Os sapais secos, ou secundários, da área de estudo, são importantes para a manutenção da diversidade a nível local, nacional e europeu. Enfrentam graves problemas de conservação, e estão parcialmente fora do perímetro da Reserva. Algumas das espécies de aves que aqui ocorrem estão incluídas nas “Aves com elevado valor de conservação”, anteriormente referidas, i.e. a perdiz-do-mar, o alcaravão, o sisão, a cotovia-escura, a calhandrinha-das-marismas e o tartaranhão-caçador. No inverno ocorrem também a toutinegra-tomilheira Sylvia conspicillata, a calhandra-real Melanocorypha calandra e a narceja-galega Lymnocryptes minimus, respetivamente com os estatutos “Quase Ameaçado” (as duas primeiras) e “Informação Insuficiente”. A toutinegra-tomilheira está presente também durante a primavera, desde o final do inverno.

Exemplos de outras espécies nidificantes presentes nestes locais são a calhadrinha-comum Calandrella brachydactyla, o trigueirão Miliaria calandra, a codorniz Coturnix coturnix, o perna-vermelha Trynga totanus e o picanço-barreteiro Lanius senator, entre outras.

Mamíferos
Com base em trabalhos de inventariação realizados na área da Reserva e em distribuições potenciais publicadas, é possível listar 36 espécies de mamíferos de ocorrência confirmada ou muito provável. De entre estes, destacam-se espécies ameaçadas, como a lontra e os morcegos. A Lontra Lutra lutra é uma espécie considerada “insuficientemente conhecida” e incluída no Anexo II da Diretiva Habitats.

Relativamente à distribuição dos morcegos no perímetro da Reserva, apenas existe informação para quatro espécies. O morcego-anão Pipistrellus pipistrellus é o mais comum nesta zona, ocorrendo em toda a sua extensão; o morcego de Kuhl Pipistrellus kuhlii não é tão comum, mas distribui-se também, provavelmente, por toda a área da Reserva. O morcego-arborícola-gigante Nyctalus lasiopterus foi detetado apenas num local, tal como o morcego-hortelão Eptesicus serotinus.

Das restantes Ordens de mamíferos o número de espécies ameaçadas é menor, mas, ainda assim, há a realçar os estatutos de conservação do coelho Oryctolagus cuniculus (Quase Ameaçado) e do toirão Mustela putorius (Informação Insuficiente).

Invertebrados terrestres
Relativamente aos insetos, foram referenciados para a área da Reserva e envolventes 116 espécies de coleópteros, a maioria carabídeos (i.e. escaravelhos); estes estão estreitamente relacionados com terrenos húmidos e mais ou menos salgados, sendo portanto espécies ripícolas e halófilas. A importância da Reserva reside no facto de constituir o limite mais ocidental, até agora conhecido, de distribuição de algumas espécies, nomeadamente Siagona europaea, Daptus vittatus, Acinopus gutturosus, Polysthicus connexus e Brachinus exhalans, e de ser o único local onde estas foram encontradas em Portugal.

Invertebrados aquáticos
Nos charcos temporários que se formam durante o inverno ocorrem 5 das 8 espécies de crustáceos filópodes que ocorrem neste biótopo em Portugal. Destas espécies os registos mais importantes são Branchipus schafferi (apenas referenciada para este local) e Tanymastix stagnatilis (o segundo registo em Portugal).

Destacam-se ainda os crustáceos Penaeus kerathurus e Artemia franciscana, espécies com valor comercial. A Artemia tolera salinidades muito elevadas e está estreitamente relacionada com as salinas. Na zona intertidal destacam-se, pela sua abundância, o poliqueta Hediste diversicolor e o gastrópode Hydrobia ulvae.

Peixes marinhos e estuarinos e migradores
Foram identificadas 22 espécies de peixes essencialmente associadas aos meios marinhos e estuarinos. Os esteiros da Lezíria e da Carrasqueira e as zonas de sapal funcionam como áreas de criação ("nursery") para várias espécies, nomeadamente para algumas de elevado valor económico como a dourada Sparus aurata, o robalo Dicentrarchus labrax e o sargo Diplodus sargus. Estas espécies, a par do sargo-alcorraz Diplodus annularis, do linguado-da-areia Solea lascaris, do linguado-branco Solea senegalensis e linguado-legítimo Solea vulgaris estão classificadas como “Comercialmente ameaçadas”.


Peixes dulciaquícolas e migradores
Na zona intertidal, até às Azenhas de Mértola, ocorrem espécies marinhas eurihalinas, nomeadamente tainhas, que se localizam sobretudo nas ribeiras afluentes e descem ao rio durante as alturas de cheias.

No estuário do Guadiana ocorrem três espécies migradoras anádromas, nomeadamente, o sável Alosa alosa, a savelha Alosa fallax e a lampreia-marinha Petromyzon marinus. O esturjão Acipenser sturio foi uma espécie comum no Guadiana, mas, atualmente, é considerado como “Regionalmente Extinto”, pois não é capturado em Portugal desde o início da década de 80 do séc. XX. Uma das principais causas para a extinção desta espécie no Guadiana terá sido a destruição das zonas de reprodução, através da extração de areia; a poluição das águas poderá também ter sido um fator prejudicial para os indivíduos reprodutores.

Todas as espécies de peixes migradores referidas têm estatutos de ameaça elevados. Assim, o sável apresenta o estatuto “Em Perigo” e a savelha e a lampreia-marinha de “Vulnerável”. Um dos principais fatores responsáveis pela elevada probabilidade de extinção destas espécies é a dificuldade de acesso a zonas de reprodução, devido à existência crescente de obstáculos à sua migração.

A enguia Anguilla anguilla é um migrador catádromo e, apesar da sua ampla distribuição em Portugal e na Europa, encontra-se ameaçada devido à exploração furtiva intensa de larvas nas zonas estuarinas e ao aumento do número de obstáculos à sua migração. Esta espécie apresenta o estatuto de ameaça “Em Perigo”.

Anfíbios e répteis
Os anfíbios, juntamente com os répteis, são o grupo de vertebrados menos estudado da área da Reserva. Apenas um estudo confirma a existência de duas espécies, a rã-verde Rana perezzi e o tritão-marmorado Triturus marmoratus nas zonas temporariamente alagadas, de água doce, não havendo mais referências de trabalhos direcionados para a herpetofauna da área da Reserva. Não existem também referências de trabalhos de inventariação de répteis na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António e zonas envolventes.

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