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Aspetos acústicos | Principais ameaças

Aspetos acústicos | Principais ameaças
Aspetos acústicos | Principais ameaças

 

 

Aspetos acústicos | Principais ameaças

 

Aspetos acústicos

O modo como os roazes interagem entre si e com o meio depende do seu sistema sensorial. Sendo os golfinhos especialistas acústicos, o seu sistema auditivo e acústico é o canal privilegiado para a compreensão e interação com o ambiente e com os seus conspecíficos.

O sistema auditivo dos cetáceos apresenta adaptações morfológicas específicas à vida aquática, nomeadamente a ausência de protuberâncias associadas ao ouvido externo, que se apresenta incluso e com paredes mais espessas (Ketten 1998). Existem também alterações a nível do ouvido médio, que apresenta mucosas mais densas, consistentes com a necessidade de efetuar mergulhos rápidos e profundos (Ketten 1998).

Nos cetáceos, os canais auditivos externos não são funcionais, sendo a mandíbula inferior considerada como o caminho de condução sonora, pelo menos para as altas-frequências relacionadas com a ecolocalização (Au 1993). De acordo com esta teoria, o som é transmitido através do canal mandibular até ao ouvido interno, sendo então transmitido para os centros auditivos do cérebro através do nervo auditivo.

De acordo com a teoria mais recente, os sinais acústicos são produzidos no interior do crânio, na região nasal, através da circulação forçada de ar entre as bolsas nasais, provocando a vibração de uma estrutura labiada designada museau de singe (Cranford et al. 1996). Os sinais sonoros podem ser focalizados antes da sua emissão através dos tecidos esponjosos da fronte, que podem funcionar como uma “lente acústica”. A existência de dois sistemas de sacos nasais permite aos golfinhos produzir dois sons diferentes em simultâneo, utilizando diferencialmente os dois sistemas (Dormer 1979).

O roaz apresenta sensibilidade auditiva entre 75 Hz e 150 kHz, atingindo o máximo de sensibilidade para frequências entre 15 e 110 kHz, onde o limiar de audição atinge valores próximos dos 40 dB re 1μPa. A melhor discriminação sonora ocorre entre 2 e 55 kHz de frequência (Luís 2008).

O repertório acústico do roaz é diversificado, tanto ao nível do espectro de frequências como no que diz respeito à pressão sonora produzida, podendo ser agrupado em 3 categorias, de acordo com o tipo de som, estrutura e composição espectral (Richardson et al. 1995; dos Santos 1998):

  • Assobios - sons tonais de banda estreita, com funções comunicativas;
  • Estalidos - sons de curta duração e banda larga, utilizados na ecolocalização;
  • Outros sons pulsados - sons complexos e variáveis, associados à expressão de emoções e comunicação.
     

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Ecolocação [Ilustração: Marcos Oliveira]

 

Principais ameaças

A partir dos estudos realizados sobre a população de roazes do Sado e outras populações com características semelhantes, foi possível identificar quatro potenciais fontes antropogénicas de ameaça: degradação da qualidade da água do estuário, tráfego marítimo, pesca e poluição acústica.

 

Degradação da qualidade da água
Direta ou indiretamente, o estuário constitui o meio recetor de todos os efluentes domésticos, industriais e agrícolas, e a qualidade da sua água é ainda influenciada pela intensificação do tráfego marítimo, pela presença de um grande estaleiro naval e pela existência de aquaculturas.

O facto de alguns dos poluentes introduzidos no estuário poderem ser bioacumulados ao longo das cadeias tróficas aquáticas induz alterações bioquímicas e fisiológicas nos organismos marinhos (Ferreira & Vale 1998). Sendo os roazes predadores de topo, o fenómeno da bioacumulação adquire contornos preocupantes.

Embora não se conheça em pormenor o efeito dos poluentes de origem antropogénica nos roazes do Sado, existem vários estudos que mostram que poluentes como os DDT’s (diclorodifeniltricloroetanos) e os PCB’s (bifenilos policloratos) influenciam negativamente a função reprodutora e imunológica dos mamíferos marinhos (Reijnders 1986). Existem ainda evidências de que fêmeas primíparas expostas a níveis elevados de PCB’s têm um risco elevado de mortalidade neonatal (Schwacke et al. 2002). Por outro lado, também os compostos organoestânicos (presentes nas tintas anti vegetativas – TBT’s) podem suprimir o sistema imunitário dos roazes, contribuindo para um aumento da mortalidade (Kannan et al. 1996).

Com o seu sistema imunitário enfraquecido, os roazes ficam mais susceptíveis a infeções por bactérias, parasitas e vírus (Lahvis et al. 1995), como os vírus da família Poxviridae, responsáveis pelo aparecimento de lesões cutâneas, como a doença da tatuagem (Van Bressem et al. 2003) já observada em vários juvenis da população de roazes do Sado.

 

Tráfego marítimo
O estuário do Sado está exposto a um intenso tráfego de embarcações que tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Contribuem para esta situação, os ferry-boats, os rebocadores, as embarcações de pesca e de recreio bem como navios de grandes dimensões, destinados à zona industrial e aos estaleiros navais.

De um modo geral, os animais tendem a apresentar reações neutras em presença das embarcações de maior porte, uma vez que estas mantêm rotas relativamente fixas e velocidade reduzida. No que respeita ao ruído subaquático, os animais não apresentam reações aos altos níveis de pressão acústica das embarcações de pesca e navios de grande porte (ex: petroleiros e cargueiros), provavelmente devido à sua menor sensibilidade às baixas frequências (dos Santos 1998).

Relativamente à náutica de recreio e à atividade comercial de observação de roazes, verifica-se uma utilização mais intensa e desregrada do estuário durante os meses de verão, com impactes negativos imediatos nos roazes.

Cascão (2001) analisou a reação dos roazes do Sado à presença destas embarcações num raio de 300 m. Verificou que os roazes podem alterar o padrão de atividade comportamental, a composição e estrutura espacial dos grupos, aumentar a duração dos mergulhos e a frequência de golpes caudais, comportamentos indicadores de situações de stress. Vários estudos referem que estas alterações podem interferir com mecanismos vitais como a procura de alimento, o acasalamento e a procriação e, a longo prazo, afetar a sobrevivência da população (Nowacek et al. 1999; Baker & Macgibbon 1991; Erbe & Farmer 2000).

 

Pesca
A pesca ilegal e/ou um intenso esforço de pesca podem ter efeitos negativos sobre a população de roazes uma vez que podem contribuir para a diminuição da disponibilidade das suas espécies-presa. De igual modo a utilização de artes lesivas pode ocasionar alteração/destruição de habitats vitais para a manutenção dos stocks das espécies-presas.

 

Poluição acústica
O ruído antropogénico tem o potencial de afetar os cetáceos de diversas formas, podendo reduzir a condição do indivíduo, população ou espécie (Perry 1998), uma vez que estes animais dependem das suas capacidades acústicas tanto para comunicação como para a perceção do seu meio e deteção de presas (Reynolds et al. 2000).

É possível que o ruído portuário e industrial no estuário do Sado não seja uma fonte de perturbação ambiental grave para os roazes do ponto de vista sensorial e fisiológico. No entanto, pode constituir um impacte ambiental não negligenciável pela possibilidade de mascarar os sons gerados por potenciais presas (dos Santos 1998). A verificar-se esta teoria, os roazes poderão alterar o padrão de utilização do habitat, procurando novas zonas de alimentação em áreas exteriores ao estuário. A saída do estuário pode influenciar a sobrevivência dos animais mais jovens, normalmente mais protegidos no interior do estuário (Gaspar 2003).

Contudo, o conhecimento dos efeitos da poluição acústica sobre os roazes do Sado é ainda insuficiente pelo que são necessários mais estudos que permitam definir medidas de minimização dos impactes das atividades humanas na população de roazes.

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